O filósofo e a Fada do Dente.
“Se você tira a mentira vital para um homem vulgar, tira-lhe ao mesmo tempo a felicidade”. Ibsen.
Para o adulto, um conjunto de argumentos possui um poder de convencimento inimaginável, não necessita de nenhuma verdade, independe de quaisquer provas. Quando ele força ou incita alguém a chegar a determinado tipo de conclusão ele se torna real. O que importa, portanto, é o modo como age e, sobretudo, como faz agir. Mais vale o erro que se crê do que a verdade que não se crê. Através dos argumentos, aquilo que não se conhece passa a ser conhecido e explicado; assim, uma mentira pode ser construtora de verdade. Quanto mais claras as coisas e as conexões entre elas maior a força de uma idéia, pois não há para o indivíduo pensante um mundo-verdadeiro e um mundo-ilusão. O mundo-ilusão é para o sujeito iludido o seu mundo-verdadeiro; sua crença é sua realidade. Não importa se um fato existe ou não fora das mentes dos sujeitos, importa que esses acreditam e vivem sob a forças das idéias que o sustenta.
Não digo isso, pelo menos dessa vez, para criticar os iludidos e as suas ilusões. Digo para defender o direito inalienável do homem à mentira, ao disfarce e ao engano. Disse o criador: menti-vos uns para os outros, pois sem as mentiras os homens seriam dominados pelo desespero e clamariam pela morte. É preciso viver como as crianças que sendo mais espertas sabem que o iludir não representa necessariamente o ato maldoso de induzir o outro ao erro em proveito próprio e nem a vontade perversa de traí-lo ou trapaceá-lo. Elas conseguem construir e viver novos mundos e ainda embarcar nas fantasias alheias; sem culpas, sem medo de errar ou se enganar, sem querer eliminar o impossível. Talvez por isso sejam mais felizes, porque sabem enxergar as fragilidades que tentam sustentar o insustentável mundo real, porque duvidam dos argumentos, porque constroem realidades sem se preocupar se elas existem para além do momento vivido.