Caminho suave

Várias doses de xarope
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Estou ficando velho! Posso ainda não estar decrépito e caduco, mas já pertenço a um passado que só existe na memória. Soube disso hoje, entrei na biblioteca e me deparei com uma exposição sobre a memória da educação brasileira. Evidente que a exposição é tosca; junte umas pedagogas e umas bibliotecárias que logo se deduz. O fato é que mesmo não sendo afeito a essas patuscadas, resolvi sentar no banquinho do grupo escolar colocado junto à entrada e ver os livrinhos selecionados. Encontrei uma parte da minha vida: a mais supimpa, batuta, faceira e serelepe das cartilhas: a Caminho Suave. Pensei: devo ser um gênio e toda a minha geração é composta de superdotados, pois aprendemos a ler e escrever com ela e apesar dela. Matutei um pouco mais e acho que descobri porque brasileiro gosta tanto de ler: não tivéssemos usado a cartilha, seríamos todos uns jumentos de sete patas. Meus amigos, meus inimigos, vejam a beleza da obra literária: “Vovó colocou o xale nos ombros. É todo xadrez. Ela foi à farmácia comprar xarope de ameixa. O vovô está com tosse. O vidro de xarope veio na caixa. Vovó deu uma colherada ao bom velhinho. Na hora de dormir, levou-lhe uma xícara de chá. Amanhã ele estará melhor”. Ainda bem! O xarope deve ser bom, a cartilha é muito xarope, portanto, a cartilha deve ser muito boa!