Mercadoria engolida

Mercadoria engolida
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Todo mundo falou dela... Só se falou dela: Susan Boyle, a patinha feia que virou estrela no show de calouros da TV britânica. A mim ela não encantou nem comoveu, sua voz deve ser boa, mas prefiro ouvir Mukeka di Rato. Não me interessa sua tragédia ou seu sucesso; alguém se interessará no próximo ano? O que me importa e me espanta é como a garota que nunca foi beijada, como a jeca desempregada se tornou, da noite pro dia, um produto e um exemplo; uma saborosa mercadoria engolida pelo capitalismo, uma prova viva de que o sistema funciona e de que, cedo ou tarde, premia aqueles que merecem, que acreditam e lutam por seus sonhos. Como símbolo de perseverança, sem querer e sem saber, Susan Boyle também se tornou garota propaganda da Igreja Universal. Na próxima vigília dos 318 pastores provavelmente não haverá ninguém que cante como ela, mas ali e fora dali certamente haverá milhões de sonhadores que, realimentados pelo sangue e pelas lágrimas da patinha feia, estarão depositando suas esperanças, suas fichas e moedas neste mesmo mundo que maltratou e aplaudiu, que desprezou e afagou a senhorita Boyle. Quem crê em Deus crê em milagres, e nesse jardim de caminhos que se bifurcam sempre haverá inumeráveis possibilidades...