A sabedoria dos eqüinos desfigurados
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Conheço três tipos de indivíduos: os que são personagens e os que são caricatura. Os personagens podem ser representações de si mesmos ou podem ser atores de papéis alheios; como as marionetes. Os que são caricatura são seres desfigurados, esboços mal construídos da sua espécie, tão toscos e rasos que sequer teriam papel em novela mexicana... Conheci certa vez um jumento que criou para si uma caricatura de intelectual. Andava por aí jogando xadrez, livros de filosofia embaixo do braço, cachimbo na boca. Com grande arrogância vivia a citar autores difíceis e sofisticados; tanto os que não leu quanto os que leu e não entendeu. Vestia-se como um arremedo de sociólogo francês da década de 60: terninho de evangélico pobre e boina de comunista desempregado. O problema é que o coitado não se conteve em simplesmente passar uma imagem de sabichão; ele passou a acreditar na veracidade da caricatura que criou. Na sua ingênua pantomima o jumento se transformava num Jean-Paul Sartre tupiniquim. Triste crença, triste farsa! Os jumentos quando abandonam sua espécie, quando deixam de ser o que são, transformam-se em eqüinos desfigurados, desses que se apóiam em sete patas e que levam na cabeça chifres que nem são seus. E o pior: enquanto os jumentos ruminam o que lhes entra pela boca, esses outros, por arrogância, têm por costume vomitar qualquer coisa que lhes enchem os intestinos.
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Conheço três tipos de indivíduos: os que são personagens e os que são caricatura. Os personagens podem ser representações de si mesmos ou podem ser atores de papéis alheios; como as marionetes. Os que são caricatura são seres desfigurados, esboços mal construídos da sua espécie, tão toscos e rasos que sequer teriam papel em novela mexicana... Conheci certa vez um jumento que criou para si uma caricatura de intelectual. Andava por aí jogando xadrez, livros de filosofia embaixo do braço, cachimbo na boca. Com grande arrogância vivia a citar autores difíceis e sofisticados; tanto os que não leu quanto os que leu e não entendeu. Vestia-se como um arremedo de sociólogo francês da década de 60: terninho de evangélico pobre e boina de comunista desempregado. O problema é que o coitado não se conteve em simplesmente passar uma imagem de sabichão; ele passou a acreditar na veracidade da caricatura que criou. Na sua ingênua pantomima o jumento se transformava num Jean-Paul Sartre tupiniquim. Triste crença, triste farsa! Os jumentos quando abandonam sua espécie, quando deixam de ser o que são, transformam-se em eqüinos desfigurados, desses que se apóiam em sete patas e que levam na cabeça chifres que nem são seus. E o pior: enquanto os jumentos ruminam o que lhes entra pela boca, esses outros, por arrogância, têm por costume vomitar qualquer coisa que lhes enchem os intestinos.