O perigo da besta

O semi-analfabeto político

No Brasil qualquer pessoa que saiba escrever seu próprio nome passa a ser considerado alfabetizado, pelo menos é isso que mostram os números. Analfabeto é aquele que sequer consegue escrever seu nome nos documentos. A imensa maioria da população não consegue compreender adequadamente um texto e possui enormes dificuldades para relacionar idéias e escrever qualquer manuscrito com mais de dois verbos. O trágico não deixa de ter seu lado cômico, pessoas, muitas com nível universitário, que sequer leram um livro na vida ou conseguem escrever uma redação escolar do tipo minhas férias na fazenda, apontam os seus dedos para julgar os iletrados que não passaram seus anos nos bancos escolares.
O sujo critica o mal-lavado. Em política o processo discriminatório é semelhante, cada um se julga consciente do mundo em que vive e capaz de compreender o tabuleiro do jogo dos interesses. Bertold Brecht esqueceu-se de dizer que assim como há analfabetos e semi-analfabetos, há analfabetos políticos e semi-analfabetos políticos. Aquele que sabe que nada sabe é quase sempre mais astuto que aquele que acredita ter algo a ensinar e em alguns casos menos perigosos. Na política, a triste ingenuidade do saber sem conhecimento é um terreno fértil para os maiores descalabros da história da humanidade. O semi-analfabeto político não é um homem de dúvidas é o homem de certezas, ainda que não consiga ir além daquilo que lhe ensinaram. Aí está o seu perigo, seus dogmas não lhe permitem ver nada além e, se por alguma luz, consegue dar um passo adiante o faz sem saber que segue o caminho fácil, já pré-determinado, seja por aquele que o manipula ou por aquele que o doutrina.
Na sua visão estreita ele é incapaz de perceber que uma mesma realidade possui inúmeras e múltiplas faces, e que cada fato permite inúmeras interpretações. Seu mundo é dividido entre o bem e o mal, entre o belo e o feio, entre o certo e o errado... Numa visão maniqueísta tão pobre que não consegue dar conta da própria complexidade da vida. Com essa nulidade intelectual ele não consegue ser dono do seu próprio pensamento, que dirá do seu destino. Sendo incapaz de ser líder ele se torna discípulo, sendo incapaz de propor algo diferente ele se torna capacho. É aí que o rabo torce a porca.
Ao se tornar servil, um fantoche na mão do líder, ele deixa de ser um simples bobo alegre e se torna uma ameaça. Não porque seja mal, mas porque é usado como cão de guarda. Não conhecendo seu lugar no mundo ele é dominado por suas ‘paixões’, e pelo discurso fácil de líder carismático qualquer. Ele pode ainda se anular perante a opinião da maioria [ou da do partido como diria o velho Brecht].
Ocorre que não podemos classificá-lo como um bobão qualquer, afinal ele nem sempre lambe botas pelo prazer de lamber botas, mas porque espera recompensas por seu trabalho; logo as botas lambidas são as botas de quem tem poder, de que pode lhe oferecer algo. O problema é que ao não reconhecer sua condição ele imagina ser o condutor do processo, ele acredita ser o pedagogo
[1].
Como uma mosca que sentada na bosta do cavalo se sente a dona do pedaço, como se aquilo fosse obra sua, o semi-analfabeto político ao aprender o bê-a-bá já se sente o dono e criador do alfabeto e da linguagem. Talvez lhe falte um pouco de humildade e perspicácia para aprender uma lição básica: a de que quanto mais aprendemos mais dúvidas nos surgem e mais questões temos a resolver; e ainda que questão pode ser encaminhada por inúmeros caminhos e que a vida, como diria Borges, se desenvolve para inumeráveis futuros, dentro de um jardim de caminhos que se bifurcam continuamente.
Há uma diferença fundamental entre o idiota e o mal intencionado: o mal intencionado: o mal intencionado por pior que seja não é capaz de ser mal o tempo todo, enquanto o idiota apenas muito raramente consegue esconder sua condição, é mais imprevisível e mesmo quando não quer faz asneiras. A conseqüência é clara: enquanto o primeiro escolhe os alvos que pretende atingir, o segundo, por não ter critério, acaba por prejudicar até a si mesmo. Mas coitado, ele não sabe disso, não imagina que é capaz de fazer o mal, pelo contrário, possui plena convicção de que faz o melhor possível. Pode até ser, mas faz o melhor para aqueles que o dominam, afinal essa é a moral do capacho. Mas vamos poupá-lo de discussões sobre ética.
Siga o líder: seu rei mandou, é a brincadeira favorita do semi-analfabeto político, pois é só nela que permitem que ele participe do jogo. E nela o mesmo pensamento estreito: ou você está comigo ou está contra mim. Isso é importante para o líder, fazê-lo imaginar que estão todos na mesma situação, que são iguais e que devem estar de braços dados para enfrentar o inimigo. Foi assim no nazismo, foi assim no fascismo, foi assim no socialismo soviético, nas ditaduras latino-americanas... Um bando de gente, nem tão mal intencionada, seguindo crenças fáceis, aplaudindo discursos bonitos, aderindo ao partido do povo, esperando as migalhas do poder, sonhando com um novo amanhã...
O resultado? Ora, esse todos nós conhecemos. Perseguição política, imposição de verdades, ameaças e violência contra opositores, contra todos que ousam discordar... O rebanho de cordeirinhos é transformado em matilha de cães ferozes e assassinos. E então não importa pensar quem está do lado do bem ou do mal, na mesma lógica precária não importa pensar quem é bem ou mal-intencionado. Importa saber as conseqüências dos atos, importa saber o que os conduziu até ali.

[1] Pedagogo. [Do grego paedagogu]. 3. Fam. Aquele que se julga com o direito de censurar o outro. In. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. Pg. 1290.