Uma identidade imponente...
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Os evangélicos têm razão em uma coisa: é necessário pregar a palavra. A palavra transforma vidas. Transformou a minha! Era ainda moleque, estava na quinta ou sexta série quando aconteceu. O fato é que quando eu voltei do recreio meu caderno estava aberto sobre a carteira e em letras garrafais lá estava a palavra: cínico! Eu era um cínico! A palavra mudou minha vida, até aquele momento eu não era nada, eu não tinha identidade, não tinha uma qualificação... Era um sujeito sem predicado, sem adjetivo. Mas daquele dia em diante passei a me ver com outros olhos, eu era alguém, eu tinha um atributo e uma qualidade: eu era um cínico! Eu podia abrir o dicionário e me encontrar, do mesmo modo que eu podia abrir a enciclopédia e encontrar Jesus. Para um moleque de uns doze ou treze anos, ser cínico só poderia ser uma glória, afinal eu tinha um adjetivo sofisticado, imponente e, acima de tudo, um adjetivo com a força dos proparoxítonos. Tomei gosto, fui crescendo e incorporando novos atributos e novos predicados, todos proparoxítonos: crápula, hipócrita, sarcástico... Veja a beleza da vida: sem querer, a menina que escreveu no meu caderno mudou minha história, me transformou em alguém, me deu uma imagem e uma personalidade bem resolvida. Se uma dia eu aprender a orar, talvez dê graças a ela por nunca ter necessitado procurar um analista!
E a palavra, uma vez lançada, voa irrevogável. [Horácio, 65-8 a.C.]
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Os evangélicos têm razão em uma coisa: é necessário pregar a palavra. A palavra transforma vidas. Transformou a minha! Era ainda moleque, estava na quinta ou sexta série quando aconteceu. O fato é que quando eu voltei do recreio meu caderno estava aberto sobre a carteira e em letras garrafais lá estava a palavra: cínico! Eu era um cínico! A palavra mudou minha vida, até aquele momento eu não era nada, eu não tinha identidade, não tinha uma qualificação... Era um sujeito sem predicado, sem adjetivo. Mas daquele dia em diante passei a me ver com outros olhos, eu era alguém, eu tinha um atributo e uma qualidade: eu era um cínico! Eu podia abrir o dicionário e me encontrar, do mesmo modo que eu podia abrir a enciclopédia e encontrar Jesus. Para um moleque de uns doze ou treze anos, ser cínico só poderia ser uma glória, afinal eu tinha um adjetivo sofisticado, imponente e, acima de tudo, um adjetivo com a força dos proparoxítonos. Tomei gosto, fui crescendo e incorporando novos atributos e novos predicados, todos proparoxítonos: crápula, hipócrita, sarcástico... Veja a beleza da vida: sem querer, a menina que escreveu no meu caderno mudou minha história, me transformou em alguém, me deu uma imagem e uma personalidade bem resolvida. Se uma dia eu aprender a orar, talvez dê graças a ela por nunca ter necessitado procurar um analista!
E a palavra, uma vez lançada, voa irrevogável. [Horácio, 65-8 a.C.]