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Ódio, cicatrizes da alma

Ódio, cicatrizes da alma
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Eu vou para o inferno, eu sei. Serei condenado por não ser capaz de um perdão sincero. Minha sinceridade me condena, por isso não posso nem ser salvo e nem me dizer cristão, como, aliás, fazem os hipócritas. Não posso rezar palavras vazias como fazem aqueles que repetem a oração, não posso pedir para ‘Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido’. Não, não perdoamos porra nenhuma! Quando Jesus quis ensinar os homens a rezar, talvez não tenha imaginado que para Deus essa frase pudesse ser dura de ouvir; sabe o Senhor que essas palavras, quase que invariavelmente, exalam o fétido odor da hipocrisia que domina as almas daqueles que por tradição ou falta de opção se dizem cristãos. Para a maioria dos homens, desejar que Deus dê o mesmo tipo de perdão a que alcança nossos corações é pedir por condenação. Sou um desses que até são capazes de acreditar em algum tipo de arrependimento, mas ainda assim não tenho a mínima capacidade de perdoar sinceramente, seja por inspiração demoníaca ou pura falta da divina graça, minha crença é a de que as feridas da alma não se curam e que mesmo quando já não causam as mesmas dores deixam as cicatrizes e que essas são apenas disfarces superficiais para talvez esconder as pequenas hemorragias internas que nos acompanharam até nossa última hora. Continue lendo



Fantasias obsessivas...

...realidades perversas e arte visceral
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Saiu na Times uma lista dos 200 artistas mais importantes do século XX, é uma bobagem. Quase todas as listas desse tipo são bobagens; essa não é diferente e nela estão os de sempre, numerados em ordem decrescente. Não entendo patavina de pintura, mas ainda assim repito o que diz o Óbvio: nada de Picasso, nada de Cezánne, Monet ou Duchamp, o grande artista do século passado é o Chico Toucinho. Ele mesmo, aquele irlandês que os gringos ainda não desaprenderam a chamar de Francis Bacon. A genialidade do sujeito é de doer nas retinas, Bacon é a mais grandiosa expressão das dores, das paixões, das misérias e das agruras humanas. Não é arte para meninas sensíveis, Bacon se mutila e se expõe esquartejado em telas distorcidas e repletas de sofrimentos, anomalias e deformações. É assustador, é visceral, é apaixonante! Violência, erotismo, masoquismo e pedofilia se misturam em fantasias obsessivas regadas com lágrimas, sangue e esperma; suas imagens desoladoras são expressões das maiores perversões mentais e dos piores pesadelos do homem fragilizado que cresceu sendo chicoteado pelo pai e maltratado pela babá que o trancava no armário. Chico, que nasceu há exatos cem anos, costumava dizer que gostaria que suas pinturas dessem a impressão de que um ser humano passou por dentro delas, como uma lesma, deixando o rastro de sua presença e resquícios da memória de eventos passados, assim como a lesma deixa rastros de sua baba. Certamente ele conseguiu... E como conseguiu!