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Sobre predestinação

Sinais da desgraça satânica
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Sou quase um calvinista! Quase! Pelo menos acredito que Calvino estava certo num ponto crucial, o da predestinação. Deus criou os homens e os predestinou a serem salvos ou condenados. Não importa as nossas intenções ou as nossas obras, faça o que fizer o destino já está traçado. O erro do teólogo foi não perceber a mais óbvia das evidências que diferencia os condenados daqueles que ganharam a piedade do criador: o ronco! Nada entendo de religiosidade e nada sei sobre os herdeiros dos reinos dos céus, mesmo porque não devo estar incluído no grupinho do Senhor; o que me resta então é especular sobre os sinais visíveis daqueles que queimarão no mármore. Não tenho dúvida, pelo menos uma evidência eu descobri: o ronco é um dos sinais do corpo possuído pelo Belzebu. Quem ronca já está no inferno, pois não é possível que esse problema não seja a mais óbvia evidência de como o mal domina o corpo humano. O ronco impede o amor e destrói as relações humanas, afasta os justos e atormenta as almas. Soube disso outro dia, tive que viajar à noite, num ônibus, com uma dessas pobres almas, um sujeito que roncava mais que porco ferido nos olhos. Quatro horas com o estridente sonido do inferno nos meus ouvidos. Só quem já passou por isso sabe o que estou dizendo. Sei que a luz dos céus me incitava a cortar aquela garganta amaldiçoada, e tivesse eu uma navalha abreviaria a desgraça satânica daquele condenado. Deus deu a ideia, mas não deu a navalha; estou preocupado, talvez seja um outro sinal!



 

Crime e castigo

A mais cruel das doenças
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A paixão é a mais cruel das doenças, ela sufoca o amor, mutila, decepa e destrói vidas. Ela domina a razão, enceguesse os espíritos e, como um buraco negro, arrebata tudo à sua volta. Das loucuras temporárias que acomete os homens é das mais perigosas, pois é capaz de colocar em risco a vida daquele que sofre sob o seu domínio e o alvo a quem o enfermo escolhe como motivo para a perversa obsessão. Nos casos mais graves a paixão toma de tal forma o corpo e a mente, ou o espírito se quiserem, que o feliz infeliz quer ter domínio sobre o outro quando já não tem domínio sobre si. Nesses casos ousaria dizer que ninguém pode ser condenado por cometer um crime quando o cometeu movido por uma paixão! Mas pode a paixão ser motivo de um crime? E quem comete o crime é ainda vítima? Digo que sim, e falo de paixão no seu sentido mais usual, de amor desenfreado e desmedido, falo do sentimento patológico pelo outro que se confunde com o amor, e afirmo que não se pode e não se deve simplesmente condenar alguém que comete um crime quando movido por uma paixão, pois não se faz justiça quando se condena alguém que não possui controle sobre suas ações. Semanas atrás soube que houve na Faculdade de Direito da USP a simulação de um júri, o tema era também esse: pode a paixão absolver um criminoso? No final das contas a conclusão a que se chegou parece ser semelhante àquelas aqui exposta: o ser humano não é mais do que um brinquedo nas mãos da paixão e existem casos em que o criminoso, movido por paixão avassaladora, merece, pode e deve ser absolvido.


Obs.: podemos imputar às paixões todos os males, mas como lembrou Diderot, mas não podemos esquecer que elas são também a fonte de todos os prazeres.


Palhaçada cruel

Do pó vieste, ao pó voltarás...
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Banho de Sangue, Palhaço mata quinze na Vila Vintém. Essa foi a manchete, escrita em letras garrafais, do jornal Expresso. Óbvio, eu comprei o meu; não sei quantos outros fizeram o mesmo. Dentro do jornal a notícia era outra: havia apenas um boato de chacina, possivelmente um acerto de contas entre traficantes, muitas especulações e nenhum corpo encontrado. O Expresso é vendido por 50 centavos em todas as bancas do Rio, é um exemplo fácil da cultura da violência que domina a cidade. De modo geral, a capital fluminense está longe de ser o local mais perigoso do país contudo a imagem que se faz ali e dali é impressionante. No mesmo dia o concorrente Meia Hora trazia o nome de oito chefões do pó; isso apenas na capa, cercando a foto da bunda de uma Big Brother! Traficantes são figuras quase mitológicas, cheios de poderes; seus crimes reais e imaginados estão na cabeça de todos e a violência é o maior sinônimo do poder e da impotência. Com isso vende-se jornais, armam-se diversos esquadrões de guardas particulares e milícias armadas por policiais corruptos, diversas estruturas de poder paralelo e roubalheira ganham fortunas... Muitos perdem, mas sempre há quem ganhe; e quem ganha quer sempre ganhar mais, a qualquer custo...


Quadrilátero do pecado

Homem e mito, à margem da lei e dos bons costumes
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Estou feliz e triste ao mesmo tempo; pelo mesmo motivo: a figura mais extraordinária da vida paulistana vai parar no cinema. Soube esta semana, estão fazendo um filme baseado na vida de Hiroito Joanides. Para quem não conhece, esse sujeito foi o rei da Boca do Lixo entre as décadas de 1950 e 1960. Para mim, há uma década ele tem sido uma espécie de companheiro invisível, um amigo constante, um sujeito que me influenciou o modo de ver o mundo. Hiroito foi cafetão, traficante, ladrão, assassino, passou anos na cadeia, saiu virou escritor, fez um livro fascinante. Também era metido a intelectual; foi leitor de Heidegger e Baudelaire. Cínico, arrogante, hipócrita e gênio usava o que aprendia nos livros de filosofia para dominar e transformar o submundo da cidade e, entre prazeres e vícios proibidos, à margem da lei e dos bons costumes, dominar o quadrilátero do pecado, na atual Cracolândia. Anos depois ele diria: 'eu e a sociedade estamos quites; o muito de mal que ela causou-me, retribuí-lhe com o muito de perturbação que lhe causei'. É uma personagem que certamente pode dar um filme extraordinário. Que bom, que pena! Por anos pensei em escrever sobre ele e sobre a Boca, se pudesse eu teria feito esse filme. Ele era uma figura que fazia parte da minha vida, talvez de mais uns dois ou três, era quase um segredo; provavelmente agora ele se tornará famoso, muita gente vai falar dele. Meu egoísmo será ferido, mas o lendário Hiroito, e quem assistir o filme, certamente vai sair ganhando. Tomara que ele crie novos discípulos!