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O assassinato do Padre Marcelo

O assassinato do Padre Marcelo
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Era um sujeito de ideias e hábitos estranhos. No meio das suas tralhas ele guardava um caderninho verde onde costumava listar nomes de pessoas famosas que gostaria de ver mortas e esquartejadas em praça pública. Cada figura candidata a cadáver recebia uma nota que ia de 7 a 9; não me pergunte por que – já disse que o sujeito era estranho, sei que quanto maior a nota maior era o desejo de ver aquela pessoa inerte no caixão. Na lista bem organizada havia todo tipo de gente de jogadores de futebol e políticos a líderes religiosos, nas suas devidas categorias e com suas notas em destaque se encontravam Pelé e Neymar, Malafaia e Bispa Sonia, Maluf e George Bush, sim era uma lista internacional. Dizem que quando alguém da lista ia a óbito havia uma comemoração discreta, na morte da Hebe foram apenas três taças de champanhe. Na lista, alguns amados outros odiados pelo povo. Até mês passado o Padre Marcelo perdia feio para todos esses, sua era nota 7,5; acreditava ele que o pior castigo, as orelhas de abano, já seria uma maldição divina pior que a morte. Como disse, foi assim até semana passada, foi quando o padre cantor conseguiu inaugurar sua nova igreja, um templo para dezenas de milhares de fiéis justamente no bairro onde o sujeito morava. O padre levaria o inferno àquele lugar, continue lendo



Lugares e mulheres

Ainda sobre o Rio
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"Não há mulher feia, há mulher pobre! Não há lugar feio, há lugar pobre". Os antropólogos têm razão, beleza é uma construção cultural, mas os economistas deveriam completar a frase, dizendo que beleza é também questão econômica! Riqueza e beleza andam juntas, vivemos no triste mundo no qual só é feio o que não tem dinheiro. Exageros à parte, a frase possui dois sentidos: no primeiro, a beleza é um conceito construído, portanto aqueles que dominam ideologicamente a sociedade também determinam os padrões socialmente difundidos daquilo que é feio ou belo. Não vou falar desse, que exige uma certa heterodoxia sócio-econômica, mas daquele sentido simples que a manicure da esquina conhece. Bairro rico é bairro bonito, bairro pobre é bairro feio; mulher rica se enfeita, mulher pobre se enfeia. As construções arquitetônicas e o paisagismo funcionam na cidade como a plástica, o silicone e os tratamentos estéticos funcionam no corpo feminino. Mas a carcaça enfeitada quase sempre serve pra esconder o conteúdo sem conteúdo, e assim como a moçoila bonita nem sempre é a mais bacana o lugar bonito nem sempre é o mais interessante; quase sempre falta vida, falta emoção, falta fascínio... O Rio de Janeiro maquiado para turistas tenta ser um jardim, mas é uma beleza sem graça, sem charme, sem atrativos; ninguém se apaixona por estátuas de cera em museus. O Rio decadente, do subúrbio, dos botecos, dos morros, da favela e da viela, este sim possui uma vida, talvez feia, mas vida viva.


Palhaçada cruel

Do pó vieste, ao pó voltarás...
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Banho de Sangue, Palhaço mata quinze na Vila Vintém. Essa foi a manchete, escrita em letras garrafais, do jornal Expresso. Óbvio, eu comprei o meu; não sei quantos outros fizeram o mesmo. Dentro do jornal a notícia era outra: havia apenas um boato de chacina, possivelmente um acerto de contas entre traficantes, muitas especulações e nenhum corpo encontrado. O Expresso é vendido por 50 centavos em todas as bancas do Rio, é um exemplo fácil da cultura da violência que domina a cidade. De modo geral, a capital fluminense está longe de ser o local mais perigoso do país contudo a imagem que se faz ali e dali é impressionante. No mesmo dia o concorrente Meia Hora trazia o nome de oito chefões do pó; isso apenas na capa, cercando a foto da bunda de uma Big Brother! Traficantes são figuras quase mitológicas, cheios de poderes; seus crimes reais e imaginados estão na cabeça de todos e a violência é o maior sinônimo do poder e da impotência. Com isso vende-se jornais, armam-se diversos esquadrões de guardas particulares e milícias armadas por policiais corruptos, diversas estruturas de poder paralelo e roubalheira ganham fortunas... Muitos perdem, mas sempre há quem ganhe; e quem ganha quer sempre ganhar mais, a qualquer custo...


Cartão vermelho

Futebol e o lance da condenação perpétua
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Só há algo de realmente importante na vida; o futebol. Tudo o mais é apenas acessório, é desperdício de tempo é entretenimento e distrações que unem os homens para aquilo que realmente importa, o jogo da vida. Só no futebol existe o amor verdadeiro, só no futebol existe o crime sem perdão e a condenação eterna. Há pouco mais de 60 anos começaria o maior julgamento da história desse país. Lembro-me como se fosse ontem, o Brasil ganhava de um a zero do Uruguai na final da Copa do Mundo. Bastava um empate, tínhamos todos a certeza de que seríamos campeões. Os mais de duzentos mil corações que lotavam o Maracanã não imaginaram em seus piores pesadelos que os inimigos fariam dois gols e levariam a taça para Montevidéu. Não houve outra derrota mais dolorida para o povo brasileiro, não houve um peso mais pesado a ser suportado por um único homem. O dois a um não foi uma derrota ou uma tragédia, foi um crime, só os crimes possuem vítima e culpado; e os anos mostrariam que a vítima e o culpado seria o mesmo homem: o goleiro Barbosa. O arqueiro negro da seleção sofreria por cinqüenta anos, até a sua morte, a dor da perseguição, do insulto e do desprezo de todo um país que o culpou pelo crime de ter tomado um gol. Até o dia em que morreu, de tristeza quem sabe, Barbosa suportou como ninguém, todo o gosto amargo de um julgamento e de uma condenação que se repetia todos os dias de uma vida. Sugiro à sua filha adotiva, que o acompanhou na reclusão e depressão nos seus últimos anos de angústia, que escreva em seu túmulo: futebol, alegria do povo!



Restos mortais

We are the world, we are the children...
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Passei cinco semestres da minha vida estudando antropologia. Não aprendi nada! Minha única vaga lembrança está na frase de Levi-Strauss de que há alimentos bons para comer e outros bons para pensar. E se ainda lembro disso é por conta do meu amigo Kleber, esse sim o maior antropólogo que conheci; na sua majestosa inteligência ele dizia que há pessoas boas para comer e outras boas para fazer pensar. Michael Jackson não devia ser bom para comer, no entanto ninguém melhor que ele para nos fazer pensar. Admito que nunca gostei das músicas ou da dança do sujeito e tampouco sei dizer se ele tinha algum talento ou não, mas também admito que ninguém no mundo representou tão bem o papel de astro pop. O maluco era de certa forma uma imagem refletida do absurdo do mundo contemporâneo e, como tal, um reflexo de cada um de nós. Michael era absurdo porque tinha que ser um não humano, uma mentira, uma imagem, um produto no corpo de gente, na carne humana sem desejos e sem impulsos. Por conta disso, depois da morte, não pode haver corpo porque o corpo era o produto, e este não pode morrer. O conflito entre o homem que se negava a ser homem e a imagem construída de ídolo massacrava o primeiro e rendia estilo ao segundo. A sua morte é o melhor que podia ter ocorrido, todos saem ganhando, ganham os fãs, ganham os empresários, ganha a mídia, ganha o homem-produto. Michael Jackson, no pouco de humano que lhe restava, tentava negar o mundo que o construiu e o destruiu porque o conflito era inevitável; assim como Elvis, ele foi sendo morto aos poucos, foi se negando aos poucos, foi se matando aos poucos... Os vermes, que também nada entendem de antropologia, não deverão ter dúvidas se seu corpo será melhor para comer ou para pensar!





 

Quadrilátero do pecado

Homem e mito, à margem da lei e dos bons costumes
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Estou feliz e triste ao mesmo tempo; pelo mesmo motivo: a figura mais extraordinária da vida paulistana vai parar no cinema. Soube esta semana, estão fazendo um filme baseado na vida de Hiroito Joanides. Para quem não conhece, esse sujeito foi o rei da Boca do Lixo entre as décadas de 1950 e 1960. Para mim, há uma década ele tem sido uma espécie de companheiro invisível, um amigo constante, um sujeito que me influenciou o modo de ver o mundo. Hiroito foi cafetão, traficante, ladrão, assassino, passou anos na cadeia, saiu virou escritor, fez um livro fascinante. Também era metido a intelectual; foi leitor de Heidegger e Baudelaire. Cínico, arrogante, hipócrita e gênio usava o que aprendia nos livros de filosofia para dominar e transformar o submundo da cidade e, entre prazeres e vícios proibidos, à margem da lei e dos bons costumes, dominar o quadrilátero do pecado, na atual Cracolândia. Anos depois ele diria: 'eu e a sociedade estamos quites; o muito de mal que ela causou-me, retribuí-lhe com o muito de perturbação que lhe causei'. É uma personagem que certamente pode dar um filme extraordinário. Que bom, que pena! Por anos pensei em escrever sobre ele e sobre a Boca, se pudesse eu teria feito esse filme. Ele era uma figura que fazia parte da minha vida, talvez de mais uns dois ou três, era quase um segredo; provavelmente agora ele se tornará famoso, muita gente vai falar dele. Meu egoísmo será ferido, mas o lendário Hiroito, e quem assistir o filme, certamente vai sair ganhando. Tomara que ele crie novos discípulos!


Grandes navegações

Dois capítulos de preconceito
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‘Eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer... Me desespero a procurar alguma forma de lhe falar...’. Roberto Carlos é o rei, mas ele só escreveu a letra dessa música porque ele não nasceu na Índia. Aqui no Brasil, e em todos os lugares do planeta, as pessoas possuem, num grau maior ou menor, alguma dificuldade para expressar certas idéias ou sentimentos. Na Índia não! Assim como o rei, às vezes nós nos expressamos mal, ficamos sem saber o que falar ou deixamos de encontrar a palavra ideal no momento certo. É uma pena, se fôssemos indianos não teríamos problemas, simplesmente falaríamos: hare baba! Hare baba serve pra tudo, expressa tudo; se você quer mandar alguém se foder, se quer mostrar admiração, se estuprou uma sardinha em lata, se queimou o dedo, se pisou na cabeça de um recém nascido... hare baba! Os indianos só sabem falar isso, o idioma deles é só isso. Deve ser por isso que na Índia todo mundo fala português. E é incrível, eles falam português melhor que a gente. É que os indianos não são felizes, eles vivem numa sociedade cheia de pobreza, desigualdade e preconceito; eles gostariam de ser como os brasileiros. Nunca gostei de novela, mas veja que supimpa, só assisti dois capítulos e já estou ficando mais culto, já aprendi tudo isso... Se depender das novelas da Globo em breve seremos todos uns antropólogos sabichões! Hare baba!



Consciência limpa

Transformar crianças em mercadorias
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Não existem galinhas de rua, não existem vacas abandonadas; existem crianças de rua e crianças abandonadas. Não há razões para equívocos: na nossa sociedade, as galinhas e as vacas valem mais do que as crianças, elas possuem valores de troca e de uso que as crianças não têm. Enquanto os seres humanos adultos podem vender a sua força de trabalho em troca de alimento, as crianças que nada têm a oferecer e, por isso, sobrevivem de sobras e de caridades; ou então morrem de fome. Vacas e galinhas podem dar leite ou ovos, podem ser consumidas, podem dar lucro; crianças só dão prejuízo, por isso era preciso que se transformassem esses pequenos trastes em mercadorias rentáveis. Veja como o capitalismo é bom: centenas de ong’s e milhares de pessoas vivem de ajudar os coitados; vendem suas solidariedades em troca de dinheiro farto. Cobrar para dar apoio a crianças abandonadas e famintas é um negócio e tanto! Afinal, como dizia seu Nelson, não fosse o sentimento de culpa, já teríamos saído urrando pelo bosque. Quem pode pagar não tem com o que se preocupar; com alguns trocadinhos é possível comprar uma consciência limpa e um sono leve, sem a culpa de ter que lembrar que enquanto dormem as crianças continuam valendo menos que bois e porcos.