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Palhaçada cruel

Do pó vieste, ao pó voltarás...
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Banho de Sangue, Palhaço mata quinze na Vila Vintém. Essa foi a manchete, escrita em letras garrafais, do jornal Expresso. Óbvio, eu comprei o meu; não sei quantos outros fizeram o mesmo. Dentro do jornal a notícia era outra: havia apenas um boato de chacina, possivelmente um acerto de contas entre traficantes, muitas especulações e nenhum corpo encontrado. O Expresso é vendido por 50 centavos em todas as bancas do Rio, é um exemplo fácil da cultura da violência que domina a cidade. De modo geral, a capital fluminense está longe de ser o local mais perigoso do país contudo a imagem que se faz ali e dali é impressionante. No mesmo dia o concorrente Meia Hora trazia o nome de oito chefões do pó; isso apenas na capa, cercando a foto da bunda de uma Big Brother! Traficantes são figuras quase mitológicas, cheios de poderes; seus crimes reais e imaginados estão na cabeça de todos e a violência é o maior sinônimo do poder e da impotência. Com isso vende-se jornais, armam-se diversos esquadrões de guardas particulares e milícias armadas por policiais corruptos, diversas estruturas de poder paralelo e roubalheira ganham fortunas... Muitos perdem, mas sempre há quem ganhe; e quem ganha quer sempre ganhar mais, a qualquer custo...


Consciência limpa

Transformar crianças em mercadorias
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Não existem galinhas de rua, não existem vacas abandonadas; existem crianças de rua e crianças abandonadas. Não há razões para equívocos: na nossa sociedade, as galinhas e as vacas valem mais do que as crianças, elas possuem valores de troca e de uso que as crianças não têm. Enquanto os seres humanos adultos podem vender a sua força de trabalho em troca de alimento, as crianças que nada têm a oferecer e, por isso, sobrevivem de sobras e de caridades; ou então morrem de fome. Vacas e galinhas podem dar leite ou ovos, podem ser consumidas, podem dar lucro; crianças só dão prejuízo, por isso era preciso que se transformassem esses pequenos trastes em mercadorias rentáveis. Veja como o capitalismo é bom: centenas de ong’s e milhares de pessoas vivem de ajudar os coitados; vendem suas solidariedades em troca de dinheiro farto. Cobrar para dar apoio a crianças abandonadas e famintas é um negócio e tanto! Afinal, como dizia seu Nelson, não fosse o sentimento de culpa, já teríamos saído urrando pelo bosque. Quem pode pagar não tem com o que se preocupar; com alguns trocadinhos é possível comprar uma consciência limpa e um sono leve, sem a culpa de ter que lembrar que enquanto dormem as crianças continuam valendo menos que bois e porcos.