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Nossas angústias

O tormento da lucidez
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Só existe um sentimento humano legítimo e verdadeiro: a angústia! Todo o resto é passageiro, todo o resto é irrelevante. As dores, as felicidades, as paixões... Nenhuma delas realmente importa. A angústia sim é fundamental, é ela que nos dá existência efetivamente humana, é a nossa companheira de toda uma vida; é ela quem está presente em cada pensamento e em cada ato e momento, sempre nos lembrando da falta de sentido do mundo e da irrelevância da nossa vida. Ela nos transforma naquilo que somos e marca o abismo entre o que queremos e o que o mundo nos permite. A angústia é parida pela responsabilidade que cada indivíduo tem diante das suas escolhas. O peso da liberdade e a responsabilidade pelo seu destino provocam no indivíduo lúcido os maiores tormentos. No seu desespero resignado, nosso amigo Kierkegaard lembrou que o indivíduo mais satisfeito é aquele que não tem consciência de sua situação; na sua filosofia estava escondido o óbvio: o desespero é bom, é o abandono de todas as certezas, é a vertigem da liberdade! A verdade é que toda e qualquer tentativa de se resolver os problemas existenciais são inúteis; mas diante deles há dois caminhos possíveis: se apegar ao conforto de qualquer explicação sobrenatural, ou aceitar que a existência humana é necessariamente sem sentido e ridícula, medíocre porém fantástica, e que a nossa capacidade de zombar dela é que nos faz capazes de suportar o seu peso. Ou nosso reino não é deste mundo ou nosso mundo não é deste reino!

Ódio, cicatrizes da alma

Ódio, cicatrizes da alma
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Eu vou para o inferno, eu sei. Serei condenado por não ser capaz de um perdão sincero. Minha sinceridade me condena, por isso não posso nem ser salvo e nem me dizer cristão, como, aliás, fazem os hipócritas. Não posso rezar palavras vazias como fazem aqueles que repetem a oração, não posso pedir para ‘Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido’. Não, não perdoamos porra nenhuma! Quando Jesus quis ensinar os homens a rezar, talvez não tenha imaginado que para Deus essa frase pudesse ser dura de ouvir; sabe o Senhor que essas palavras, quase que invariavelmente, exalam o fétido odor da hipocrisia que domina as almas daqueles que por tradição ou falta de opção se dizem cristãos. Para a maioria dos homens, desejar que Deus dê o mesmo tipo de perdão a que alcança nossos corações é pedir por condenação. Sou um desses que até são capazes de acreditar em algum tipo de arrependimento, mas ainda assim não tenho a mínima capacidade de perdoar sinceramente, seja por inspiração demoníaca ou pura falta da divina graça, minha crença é a de que as feridas da alma não se curam e que mesmo quando já não causam as mesmas dores deixam as cicatrizes e que essas são apenas disfarces superficiais para talvez esconder as pequenas hemorragias internas que nos acompanharam até nossa última hora. Continue lendo



Sobre predestinação

Sinais da desgraça satânica
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Sou quase um calvinista! Quase! Pelo menos acredito que Calvino estava certo num ponto crucial, o da predestinação. Deus criou os homens e os predestinou a serem salvos ou condenados. Não importa as nossas intenções ou as nossas obras, faça o que fizer o destino já está traçado. O erro do teólogo foi não perceber a mais óbvia das evidências que diferencia os condenados daqueles que ganharam a piedade do criador: o ronco! Nada entendo de religiosidade e nada sei sobre os herdeiros dos reinos dos céus, mesmo porque não devo estar incluído no grupinho do Senhor; o que me resta então é especular sobre os sinais visíveis daqueles que queimarão no mármore. Não tenho dúvida, pelo menos uma evidência eu descobri: o ronco é um dos sinais do corpo possuído pelo Belzebu. Quem ronca já está no inferno, pois não é possível que esse problema não seja a mais óbvia evidência de como o mal domina o corpo humano. O ronco impede o amor e destrói as relações humanas, afasta os justos e atormenta as almas. Soube disso outro dia, tive que viajar à noite, num ônibus, com uma dessas pobres almas, um sujeito que roncava mais que porco ferido nos olhos. Quatro horas com o estridente sonido do inferno nos meus ouvidos. Só quem já passou por isso sabe o que estou dizendo. Sei que a luz dos céus me incitava a cortar aquela garganta amaldiçoada, e tivesse eu uma navalha abreviaria a desgraça satânica daquele condenado. Deus deu a ideia, mas não deu a navalha; estou preocupado, talvez seja um outro sinal!



 

Erros e fraquezas

A verdade sempre nos condena
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Eu confesso senhores, eu confesso! Assumo que já tentei ser politicamente correto, que já tentei ser o mais honesto e justo entre os homens. Com esta confissão não estou dizendo que cometi um crime, mas que cometi um erro. Meu erro foi acreditar que poderia ser guiado pela minha razão e que a minha razão me faria uma pessoa melhor. A tentativa de ser, ou, no meu auto-engano, de tentar mostrar ser, um sujeito bom e correto é um equívoco que cometemos quando sucumbimos diante das cobranças da sociedade, do moralismo religioso ou diante do sentimento de culpa que vem de ambos. É uma estupidez, é uma debilidade! Na verdade nós não temos muitas opções, ou somos imbecis ou somos ordinários; ou vivemos uma mentira ou vivemos uma verdade que nos condena. Não há outras possibilidades, somos crápulas assumidos ou somos hipócritas! Quando soube disso, desisti de buscar a bondade e a santidade, desisti de tentar ser herói e busquei me libertar para praticar meus pequenos crimes e para cometer meus enormes pecados. Diante das nossas fraquezas, a única possibilidade que a vida nos permite é a de assumir ou não nossos erros. O pouco de ética que nossas paixões nos permite depende do reconhecimento de nossas limitações. Não há salvação, mas é nesse reconhecimento que o homem pode manter o equilíbrio fino entre o aceitável e o inaceitável, encontrar o que pode e o que deve e a tranquilidade de consciência que o permite dormir tranquilo. Não serei amargo, serei doce. Minha doçura será espalhar sal nas feridas que não são as minhas.